EU E EU
Acreditava ser possível conviver com duas personalidades, ainda que tendo somente uma tentando sobreviver com a outra que teimava em sumir e ofuscando a segunda (que era a primeira) que teimava em querer sobressair. O que fazer?
Quando queria, mentia a si. Dizia não ser possível, não era verdade a mentira criada. Eu não era eu mesmo e ao mesmo tempo eu mesmo era outra pessoa. Dominador e dominado, ciente e sem certeza, feliz e triste, tudo sendo nada e nada sendo tudo. O que fazer?
A personalidade prevalecia. Em todas as antíteses, uma única coincidência: Os dois personagens ou as duas pessoas eram as mesmas e ambas sentiam que permanecer no solo, ao menos em sua superfície, seria um erro. O que fazer?
Criado como aquele, porém sendo este, sabia há tempos que o futuro lhe seria duvidoso. Talvez não existisse, talvez eles caíssem e talvez com muita sorte, um deles com a morte estaria enfim contente em deixar o outro sorridente afastado da derrota de ser diferente.
Mas ambos permaneciam unidos. Criados ao mesmo tempo, um deles com regalia, o outro na rebeldia, sendo desprezado a todo tempo, querendo demostrar seu sentimento, sendo abafado, calado, condenado sem conhecimento e menosprezado como um inseto. Este vinga-se e tenta tomar seu lugar. Desrespeita a partilha que até então lhe era ingrata.
Tenta-se assassiná-lo, mais tudo é em vão. Não se escolhe livrar-se do que somos. Em um momento um ser ausente torna-se presente. Motivado pelo outro, o primeiro cede lugar. Torna-se segundo, tende a desaparecer, porém se fortalece, ainda que triste cresce e esfaqueia o motivo de seu penar. Este se cura facilmente, vinga-se sorridente e acaricia quem o quis matar.
Conquistado pela carícia o outro novamente cede seu lugar. E assim prossegue a redundante vida de quem tem como único consolo o longo manto que tarda a chegar. Manto escuro, claro, brilhante e fosco, triste e triste... O longo manto do matar.

