Terça-feira, Dezembro 20, 2005

EU E EU

Em algum lugar da passagem, procurava a certeza de estar incerto quanto ao futuro macabro de saber que nada sabe a respeito da própria natureza. Cansado de ser o que é, querendo ser o que não é e fingindo não fingir, buscava na mentira uma verdade para permanecer tranqüilo com o sentimento em revolução.

Acreditava ser possível conviver com duas personalidades, ainda que tendo somente uma tentando sobreviver com a outra que teimava em sumir e ofuscando a segunda (que era a primeira) que teimava em querer sobressair. O que fazer?

Quando queria, mentia a si. Dizia não ser possível, não era verdade a mentira criada. Eu não era eu mesmo e ao mesmo tempo eu mesmo era outra pessoa. Dominador e dominado, ciente e sem certeza, feliz e triste, tudo sendo nada e nada sendo tudo. O que fazer?

A personalidade prevalecia. Em todas as antíteses, uma única coincidência: Os dois personagens ou as duas pessoas eram as mesmas e ambas sentiam que permanecer no solo, ao menos em sua superfície, seria um erro. O que fazer?

Criado como aquele, porém sendo este, sabia há tempos que o futuro lhe seria duvidoso. Talvez não existisse, talvez eles caíssem e talvez com muita sorte, um deles com a morte estaria enfim contente em deixar o outro sorridente afastado da derrota de ser diferente.

Mas ambos permaneciam unidos. Criados ao mesmo tempo, um deles com regalia, o outro na rebeldia, sendo desprezado a todo tempo, querendo demostrar seu sentimento, sendo abafado, calado, condenado sem conhecimento e menosprezado como um inseto. Este vinga-se e tenta tomar seu lugar. Desrespeita a partilha que até então lhe era ingrata.

Tenta-se assassiná-lo, mais tudo é em vão. Não se escolhe livrar-se do que somos. Em um momento um ser ausente torna-se presente. Motivado pelo outro, o primeiro cede lugar. Torna-se segundo, tende a desaparecer, porém se fortalece, ainda que triste cresce e esfaqueia o motivo de seu penar. Este se cura facilmente, vinga-se sorridente e acaricia quem o quis matar.

Conquistado pela carícia o outro novamente cede seu lugar. E assim prossegue a redundante vida de quem tem como único consolo o longo manto que tarda a chegar. Manto escuro, claro, brilhante e fosco, triste e triste... O longo manto do matar.

Sábado, Julho 23, 2005

SeM nExO

Quando da vibração em meus tímpanos eclode a percepção da realidade dos sentidos, faz-se notar a indiferença e a descrença, a prisão e a solidão, a evaporação dos sintomas felizes e a solidificação da derrota. Mas quão forte é uma palavra? Se dita várias vezes, não provoca rachadura, mas se dita com firmeza, sem ternura e com clareza, aumenta-se a ranhura, quebra-se a pedra dura, mata-se o inseto insolente que caminha calmamente em terrenos da alma gente. Gente... Pessoas... Humanos... Nós!


A insolação atinge a retina. Esta grava a luz divina, que aos poucos danifica, porém se ramifica e reabre o espaço fechado nesse cérebro involucrado ao ponto de ser estourado com idéias absurdas.



O que mais deve ser dito?
Nada mais, nada mais...

Sábado, Junho 25, 2005

DESEQUILÍBRIO

A suspeita de estar sentindo o que sinto me causa dor. A angústia de nada saber e ao mesmo tempo saber tudo aterroriza a existência dos pensamentos. A infelicidade disso tudo é ter que continuar, vivendo de momentos...

Ontem sonhava com o que tive. Hoje peno com pesadelos sobre o que tenho. Ontem me iludia com sorrisos. Hoje ao tentar sorrir, me detenho. Detenho-me para não sorrir em vão, pois após um breve sorrir, uma tristeza invade e nos joga à solidão.

Ontem tinha sobre meu colo a certeza de estar amando, e talvez sendo amado. Hoje tenho sobre minha consciência a certeza de ter sido todo tempo enganado. Ontem ouvia coisas que me arremetiam aos sonhos. Hoje ouço soluços, os meus, que ecoam pelo ar como sons tristonhos. As lágrimas secam ao descer. Os suspiros somem ao expandir. A revolta toma o meu ser. Ser teimoso que teima em existir

Ontem não imaginava passar por hoje. Hoje não quero lembrar o que tive ontem. Pois a memória de algo que me parecia bom faz do meu presente um futuro sem esperanças. Acreditar é sofrer. Sofrer é viver. Viver é aos poucos morrer. Morrer é parar de sofrer...

redundância culminante

Domingo, Junho 12, 2005

DoRmIr

E o sono não chega...
Estou embriagado em pensamentos. Atormentado, isolado, pensativo e apreensivo, corrosivo.

E o sono não chega...
Sinto que a realidade só mostra-se ao anoitecer. Enquanto todos dormem, penso. Enquanto muitos se amam, lamento. Enquanto a vida jorra, agüento.

E o sono não chega...
Reflito sobre cada detalhe percorrido até então. Minha compania de pensamento é a escuridão. E ela “ilumina a minha vida”, ma dá força a dar partida na manhã que virá... Outro dia, outra etapa. A noite pronto virá, a escuridão me abraçará e o sono há de falhar.

E o sono não chega...
Agora corrosivo me sinto apreensivo. Quero escapar do tempo e do espaço, tento tudo, não sei o que faço. Enxergo ao longe uma estrada deserta, e nela estou somente eu. Sozinho.

E o sono não chega...
E a chuva cai, o sentimento vai e volta. E a chuva passou. Já não vejo graça em permanecer aceso.

E o sono não chega...
Perco o que nunca tive. E penso. Imagino delírios de realidade. Fato: o que imagino não é verdade. Utopia cerebral, realidade virtual, magia tradicional, água, gota, sal! Lágrima.

O sono nunca chega. Talvez há de chegar quando a lágrima rolar e a este solo a verdade juntar.

E o sono chegará!

Terça-feira, Junho 07, 2005

MANUTENÇÃO

Mas só falta um detalhe.

Mantido sob a realidade da verdade aparente e dominante e eloqüente e responsável insolente, o detalhe culminante tornaria tênue a sádica esperança de ter com que fazer e não tem o que ter. Mas ter...

Mas só falta um detalhe.

Se tivera o que falta e faltasse o que tem, a qualidade seria semelhante a realidade ilusória que contraditória expõe a semente que não floresceu e produz da raiz desse mal isolado a questão do viver.

Mas só falta um detalhe.

Cegueira envolvida por uma neblina. Criada no cinza do córtex cerebral, envolta nos mistérios da virgem mente colossal que exposta ao calor derreteu... e ferveu a sentença de por sobre a mesa o fluido que verte, que o solo converte em adubo carnal.

Mas só falta um detalhe.

Os nervos estouram com a sentença executa. A mente se estorva e busca a labuta. Para que a fuga funcione e o êxodo prometido nos mate a fome, de saber e querer, de ter e aprender, de ferir e fugir é preciso agir e tornar a mentir. Mas sorrir. E alertar que com o tempo, a fragilidade tende a acabar, porém se tratada com voz impensada, torna a rachar e promete quebrar.

Mas só falta um detalhe.

Detalhe obtuso que toma todos os ângulos. E todas as formas, e todos os graus.

E esse detalhe é o responsável pela manutenção do sopro...

Domingo, Junho 05, 2005

NUM QUARTO...

Num quarto. Varanda imaginária, clarão real. O sol inunda o ambiente. E dele não faço parte...

Pessoas. Apenas uma me pertence. De fato verídico, meu ser pertence a esta uma. Outras quatro... enfermas três, companhia uma. Num quarto.

Varanda imaginária, clarão real. O sol ainda inunda o ambiente, porém, agora, já não mais dilacera e queima a retina.

Num quarto.

Próteses retiradas, fissuras restabelecidas, tendões aflorados, dores ao máximo. Tudo isso num quarto, onde todos entram e saem, onde as dores estacionam, onde o tempo, com sua impiedade imparcial, teima em não percorrer os caminhos obrigatórios. Local ainda onde se mesclam a cura e a doença, a sanidade e a loucura, a crença e o ceticismo... e tudo isso, num quarto.

Vozes perdem-se no ambiente. E o ruído, que não cessa, perturba e relembra a dor. Dor física, sensação mental. Urina presa, dor real.

Num quarto... E o sol já brilha ao longe. Distante ainda do tempo em que se vai e cede lugar à rainha gorda, envolvida em seu branco manto. Porém, anestesiado pelo período de atividade, já não queima, já não fere, já não magoa a retina e nem tão pouco os ânimos daqueles que estão no quarto. Nesse quarto. Num quarto.

Silêncio... perturbador silêncio. Quebrado pela voz da companhia. Aquela que também, como eu, não pertence a este ambiente. Em verdade ninguém pertence a este quarto.

Quantas e quais dores já terá presenciado? Quantas pessoas? Quantas doenças? Quantas vitórias e derrotas já terá tido? quantas...

... e agora nós.... aqui estamos... num quarto... neste quarto...

Azul celeste. Já terá tido outra cor? Não importa, o quarto é tão somente o quarto. Sua origem e sua sobrevivência dependem daqueles, que neste momento, fazem parte. Depende ainda de mim e da acompanhante, que dele, neste mesmo momento, não fazemos e, involuntariamente, parte fazemos.

Paradoxos que se mesclam para dar razão e sentido ao quarto... pois se tudo são imagens, se todos os pensamentos são figuras, se todas as palavras são formas e se tudo isso foi criado pela necessidade de aliviar a dor, nesse quarto de tudo esquecemos, e dele, quando sairmos, jamais nos lembraremos.

Quarta-feira, Junho 01, 2005

PÔR-DO-SOL... TRANSIÇÃO

Brasa noturna. O inseto rodeia a cabeça que tenta pensar. O zumbido no ouvido perturba a mente que quer trabalhar. Mas há solidão, e a verdade não é verídica, pois inseto não há! Na mente circunda, no ar não transita, o vago absurdo do vácuo. Objeto estranho, ao que denomina, porém objeto não é alma, e culmina. Permanece estática.

Brasa noturna. Respostas às questões que não foram formuladas. Desterro aos brasões que não significam nada. Mas existe nesse ar, que paira sobre a nuvem pensamento, o tormento, a beleza, o glamur e a riqueza de existir e pensar. Consentir e calar, acudir, abandonar, simplesmente soprar. Permanece estática.

Brasa noturna. Conversam entre si o desejo e o não ter. O pensamento vai longe, a certeza se esconde. E pensa, e vê. Confunde-se com anedotas da vida diária. Sorri por horas e pára. Alimenta-se o corpo para que o sopro não cesse. Ilude-se a alma que no vácuo absurdo conforma-se e permanece. Estática.

Brasa. Simplesmente brasa. Que queima na noite e torna noturna. Que arde o semblante e carboniza a ternura. Pensa-se muito, nada se faz. Ilude-se constantemente. Tormentos na deflorada mente, que sente o ser ausente deste roedor insolente que teima e conduz. A eletricidade transmite-se para que o pensar exista. E a chama combate. Permanece estática.

Agora a brasa queima. A frescura do calor insuportável, a virtude do desagradável. A dor de conviver com a carne fresca sabendo-se que há de apodrecer... e morrer.


Mas ela volta. Sempre volta. Nunca morre e nunca nasce. Simplesmente mostra a face e culmina por voltar na redundância de vir e voltar a partir. Inexplicável. Permanece estática.